Pé no chão

Queridas Famílias,
Estamos nos últimos quatro meses do nosso planejamento e compartilho com vocês o tema de agosto e alguns pensamentos sobre esse tema.
- Sobre a minha infância e o tema do mês de agosto -
Eu e meus irmãos tivemos a sorte de ter uma infância livre e com o pé no chão, brincávamos na rua, que era de barro, e criávamos nossos brinquedos com as crianças das casas vizinhas. Essa experiência sempre influenciou nas idealizações e ações práticas com relação ao Nosso Mundo.
Duas coisas me marcaram muito, a primeira era que apesar de termos ganhado alguns brinquedos fabricados, lembro que preferíamos muito mais fazer de uma espiga de milho nossas bonecas e bonecos, assim como, tantos outros brinquedos e brincadeiras que vinham das árvores, hortas, gramas dos jardins e o barro da rua (como era divertido brincar no barro após uma chuva!). Outra coisa, minha mãe nunca se importou em me dar brinquedos de “meninos”, então, eu tive um batmóvel, uma caçamba e um autorama. Nunca usamos muito rosa e nem meu irmão azul.
Passado 30 anos nunca iria imaginar que a infância perderia tantas experiências bonitas, experiências essas que compõem nossas personalidades, valores morais e constroem nossa educação. Experiência como o poder brincar e andar nas ruas, o poder se sujar e se machucar, poder desafiar nossos limites com as árvores, muros e desafios que nos propomos, algumas vezes deram errados (levamos pontos, quebramos braços, quase matamos nossas mães do coração!), mas nas maiorias das vezes foi uma grande conquista e como nos trouxe segurança e autonomia. Jamais imaginaria que as crianças teriam tantos brinquedos ao ponto de não brincar com a maioria deles, como jamais imaginaria que os brinquedos e as cores continuariam sendo separados por gênero. Nunca imaginaria que a infância seria reduzida em anos e qualidade, que a imposição por ler e escrever se sobreporia ao brincar, que ao darmos o poder de consumo para uma criança ela se sentiria menos criança mais rápido.
Por isso esse mês esvaziamos as salas do Nosso Mundo, com os nossos brinquedos prontos, uma provocação e observação de como nossas crianças irão a cada dia inventar suas brincadeiras a partir do nada. Alguns materiais reciclados já viraram brinquedos, algumas ideias já surgiram, e seguimos como mediadores e espectadores.
Nosso convite para vocês é que reflitam junto com a gente e suas filhas e filhos algumas coisas, como: um brinquedo para ser legal ele precisa ser esteticamente bonito? Aliás, o que é um brinquedo bonito? Estamos reproduzindo novamente os padrões que a sociedade impõem através dos brinquedos e cores separados por gênero ou já conseguimos criar nossas crianças mais livres? Nossas crianças precisam de tantos brinquedos? Nós incentivamos esse brincar mais livre e natural?
Pensamentos e reflexões que compartilho com vocês e com nossa equipe, pois, umas das partes mais bonitas de educar é quando nós precisamos mexer em nossas estruturas internas e nos avaliarmos, para aí sim, trocar com as crianças novos olhares.

Abraços,
Juliana C. Bel
Diretora